- ELE
QUERIA COMER A
SEREIA
- EZEQUIEL
THEODORO DA SILVA
Depois
daqueles sete dias a seco na
beira do rio, sem peixe, sem
puxão, sem porra de bicho
para fazer passar o tempo,
veio-lhe à mente uma mulher
gostosuda, popozuda a
martelar-lhe os neurônios e a
gerar-lhe vontades impossíveis.
Naquele meio de mato, sem
bicho ou bicha, o negócio era
fantasiar e viajar para dentro
das experiências já vividas
com muitas mulheres deste mundão
brasileiro.
Ah:
tinha uma saída... O
piloteiro tinha contado a
respeito de uma sereia,
daquelas bem peitudas e de
ombros macios, que morava na
terceira curva do rio,
surgindo sempre no negro das
noites por sobre uma grande
pedra onde as águas batiam
sem parar. A imagem, como
descrita pelo matuto, enfiava
um forte desejo na cabeça do
nosso pescador, agora já
pensando em como fisgar para
comer. Cabeça de vagabundo é
oficina do diabo!
Não
era um caso de pescar &
soltar - catch & release
que nada! Aqui neste
caso, esse
meio-peixe-meio-mulher tinha
que ser muito bem comida, sem
tempero e talvez muito
ferozmente para atender ao seu
lado animal. Seria um pouco
difícil essa manobra de
captura, mas os prazeres
poderiam ser inventados,
inclusive uma noite de amor
com somente a parte de cima,
com peito, boca e outros furos
superiores. Como fazer com a
parte de baixo? Eis a grande
indagação!
O
fato é que naquele mesmo
anoitecer pôs-se bonitinho ao
máximo. Ensabonetou-se todo,
especialmente entre as pernas,
como que preparando para fazer
a máquina funcionar. Fez a
barba, aparou o bigode.
Meteu-se na melhor indumentária,
com patches por todos os lados
e uma bandeira do Brasil na
manga esquerda - vai ver que a
sereia era nacionalista
e queria mesmo os pescadores
brasileiros, mais troncudos e
mais dispostos às invenções
maravilhosas das camas. Era
hora, tinha que se chegar para
apreciar a meia-mulher nua -
que deixasse a tesão
reprimida mostrar-lhe o
caminho.
Chegou
ao lugar. O luar jorrava luz
no entorno da pedra. Era possível
ver a beldade com seu
grandiosos seios como dois
lindos montes. Sem dúvida que
ele subiria nesses montes e os
lamberia, beijaria, morderia
até fazer a sereia gritar de
gozo naquela barranca de rio.
Sim, eles rolariam pedra
abaixo até alcançar aquela
moita traseira, que lhes que
serviria de cama para
desfechar o ato, ou melhor, os
repetidos atos, pois o atraso
era total.
Foi
se aproximando com a canoa. Se
aproximando e o tesão
aumentando em proporção geométrica.
Seria que ela também estava a
fim? Será que essa lenda
daria frutos reais? Deixaria
ser comida? Pulou em cima
daquele peixão e conseguiu
rolar até a moita conjugal -
capim gostoso a ver a ginástica
na repetição dos atos.
Qual
a sua surpresa quando ouviu
uma voz lhe sussurrar:
-
Calma, meu pescadorzão
tesudo, vá mais devagar.
Deixa eu tirar esta fantasia
de peixe aqui da parte debaixo
e me virar pro seu lado pra
facilitar os movimentos. (Era
o dono da pousada onde estava
hospedado e sem dúvida dando
sinais de completa veadagem
naquelas paragens longínquas.
Ou você pensa que só nas
cidades existem veados?)
O
que veio depois nós deixamos
para a imaginação fértil dos
pescadores.
|