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EZEQUIEL THEODORO DA SILVA

De tanto o meu Catulé Júnior, de 6 anos, ficar me enchendo a paciência, resolvi levá-lo para a sua famosa pescaria de estréia. Parecia ter chegado a hora de mostrar aos vizinhos e amigos que "filho de peixe, peixinho é"; além disso, podia ser que o garoto me trouxesse a necessária boa sorte na captura definitiva do meu perseguido troféu (um tucunaré bocudo que já me escapara por três vezes consecutivas na região do Lago da Cobra Cabeçuda).

Na madrugada do sábado da partida, tive dois probleminhas contornáveis e pacientemente solucionados com o devido bom humor. O Júnior mijou na cama porque tinha sonhado com mundão de água do imenso lago onde íamos pescar. Foi uma barra levar o colchão molhado ( e pesado !) para secar lá no quintal, mas como pai é pai e, além do mais, pau para toda obra... Tive ainda que trocar um pneu furado da carreta do barco (percebi essa triste imagem no momento de dar marcha-a-ré no meu carro). Atrasei a partida por umas boas duas horas, mesmo porque o estepe da carreta estava murcho... e a caminhada até o posto de serviço não era das mais curtas.

No percurso até o lago, caiu um toró danado. Com a ventania e a chuva de granizo, o limpador do pára-brisa não agüentou e parou de funcionar . Exatamente a maldita palheta do meu lado. Tive que parar o carro várias vezes para passar um pano do lado de fora do vidro e assim conseguir enxergar as incessantes curvas da sinuosa estrada. Ainda bem que o Júnior tinha pegado no sono no banco de trás e nem sentiu o sofrimento daquele pai-pescador que começava a ficar nervoso com o acúmulo de surpresas desagradáveis. Só que o danado sonhou de novo e mijou nas calças, bem mais que da primeira, deixando o banco traseiro num estado deplorável. 

Enfim na margem do lago ! Ufa: ainda bem que tinha parado de chover e havia um belo gramado por ali ! Foi um sufoco sério colocar a carreta dentro da água para soltar o barco e, com o meu moleque ainda dormindo, nem percebi que a embarcação tinha rodado para dentro do lago. Me despi super rapidamente, pulei naquela água que estava gelada como-o-quê e nadei uns 30 metros para trazer o barco de volta, amarrar num galho curvado sobre a água e colocar tralha, isopor, comida e caixa de iscas dentro dele. Como eu estava fazendo totalmente pelado esse ingrato serviço, levei umas dez ferroadas de pernilongo, uma delas bem na ponta do meu pinto (foi a primeira vez que me senti um superdotado...). Mas desta vez não gritei mesmo porque Catulé Júnior estava começando a acordar e eu tinha que dar o bom exemplo.

O motor de popa não queria pegar. Suei umas duas camisas de tanto puxar a fieira. Balancei o tanque para ver se tinha gasolina. Verifiquei o suspiro. Tirei o capu, mexi no carburador, apalpei a fiação elétrica, retirei e recoloquei as velas. Até descobrir que o meu garoto estava brincando com a espiral vermelha da trava de segurança do motor, e prestes a jogá-la na superfície da água para imitar uma linha com um anzol de argola na ponta. Depois, enfim, consegui dar a partida e navegar por aproximadamente meia hora até atingir a melhor opção de local para os grandes tucunarés. Com o meu filho, o meu querido mascote ao meu lado, a sorte estaria garantida !

Preparei vara e carretilha para o Júnior, mostrando-lhe como fazer o arremesso das artificiais. Voltei à popa, sentei-me , liguei o motor elétrico e comecei a navegar paralelo à margem do lago a fim de testar a fé e a sorte. Aquele imenso tucunaré bocudo dos seus sonhos haveria de dar as caras - era hoje ou nunca !

No segundo pincho, o danado do Júnior esqueceu de apertar o dedão no carretel de linha e o resultado foi uma cabeleira tipo macarronada italiana. Daí tive que atracar o barco na margem para consertar o prejuízo e contentar o garoto que, mesmo depois dessa grande besteira, insistia em continuar pescando.

Com o nervosismo e a preocupação, errei completamente o arremesso seguinte e a isca artificial foi enroscar-se no galho mais alto de uma ingazeira. "Logo a minha isca importada mais cara, porra !" Não houve jeito nenhum de retirar a isca lá no alto porque havia formiga caminhando por sobre os galhos da árvore. Dei um puxão forte, a isca ficou grudada lá em cima, mas a linha 0.35 voltou que nem um raio, atingindo a ponta da minha orelha esquerda. Gemi de dor, quis xingar, mas refreei a frase - isto porque Catulé Júnior estava cinicamente analisando toda aquela estranhíssima situação.

Com esse incidente, ou melhor, acidente, nem reparei que o Júnior já tinha perdido o entusiasmo pela pescaria e estava devorando, feito um morto-de-fome, todos os sanduíches, sacos de salgadinhos e doces que havíamos trazido. Quando dei pela coisa, pensei que era bem melhor que o menino fizesse isso mesmo e não enchesse muito o saco, pois assim teria tempo de dar pinchos mais certeiros em direção às estruturas e assim reencontrar o meu procurado tucunaré.

Só que, passado algum tempo, ... Só que, passado algum tempo, deu uma dor de barriga desgraçada no Júnior...

- Pai, preciso ir ao banheiro...

- Sabe filho, aqui a gente faz cocô na terra mesmo. Igual aos animais. Entende?

- Ah não, ah não, eu preciso sentar . Se eu ficar agachado na terra as bolinhas não saem.

Então se ajeite aí no viveiro de peixes da frente... Abra a tampa e faça o seu servicinho. Depois, quando voltarmos, pegamos uns baldes e juntos limpamos a caca, tudo bem ?

Catulé Júnior abaixou as calças e começou a cagar ali mesmo, dentro do viveiro. Só que, nesse exato momento, a minha joão-pepino afundou inteirinha com a bocada que levou do valente tucunaré. Muita adrenalina. Briga longa. Exibição de mestre. Toda a cena assistida de camarote por Júnior, que continuava malhando o barro no trono improvisado.

O meu velho e sonhado tucunaré foi finalmente embarcado. Doze quilos e trezentos gramas bem pesados. Sim o grande troféu da minha vida ! Com o bicho pulando dentro do outro viveiro (o de trás, pois o da frente estava cheio de bolotas de merda do Júnior), liguei o motor e risquei a água em direção à marina mais próxima para tirar as fotos, comprovar equipamento e enviar tudo para o IGFA. Seria o campeão do mundo, sem dúvida nenhuma !

Sim, eu seria o campeão mundial de pesca de tucuna, do mundialmente famoso peacock bass. O meu maior sonho já vinha se transformando em realidade - quem sabe haveria algum prêmio especial, como uma casa ou uma viagem aos Estados Unidos. Sabe-se lá ! Ah, agora sim os amigos iam demonstrar um total respeito pelas minhas competências de pescador esportivo. Pensei até em embalsamar o bicho para colocar na parede da sala lá da minha sala.

Depois de amarrado o barco, eu disse ao meu filho:

- Trate muito bem e com carinho do peixão do papai, que está no viveiro aqui detrás. Se acaso o tucunaré pular ou se bater, ponha um pouco de água no viveiro pra ele ficar bem calminho e sossegado.

Dito isto, deixei Catulé Júnior tomando conta do barco e do peixe e saí correndo para dentro do barracão para chamar as testemunhas. Retornei depois de uns 20 minutos, com uma comitiva a tiracolo - todos queriam ver o meu troféu de mais de 12 quilos.

Abri o viveiro, mas não encontrei o peixe. Abri o outro viveiro, pensando ter me enganado, mas neste aqui havia apenas troço boiando... Olhei para o Júnior e perguntei:

- Onde foi parar o meu peixe, filho ?

- O tucunaré começou a pular, a chorar, com sede, pedindo água e eu dei toda água deste lago para ele não morrer. Soltei ele na água do lago depois do terceiro pulo. Assim ele toma toda a água que quiser, descansa com a família e não chora mais.

Adivinha quem começou realmente a chorar de desespero ??!!Pai sofre realmente... Ainda vale lembrar que passava voando por ali uma arara, que despejou lá do céu, bem em cima do meu cocuruto, uma bolacha de merda mole.   

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