Por
muitas vezes ao longo dos
anos, tive vontade de
conhecer pessoalmente aquele
pescador que, além de
demonstrar exímia
habilidade e domínio com a
linha de fly, transmitia uma
grande simpatia e didática
ao falar dos fundamentos
daquele estilo de pesca. Em
1997 surgiu a oportunidade
de conhecer Mel Krieger e até
fazer um rápido curso básico
com ele. Isto só foi possível
ao ser convidado como
jornalista a participar de
um congresso sobre trut
as
realizado na cidade de
Bariloche na Argentina, uma
vez que ele seria um dos
palestrantes do evento.
Ao
retornar à Patagônia no
ano seguinte, me inscrevi em
um curso avançado e aceitei
seu convite para tentar me
formar instrutor por sua
escola, pois havia decidido
abrir 15 vagas naquela
oportunidade. Suando frio,
mas decidido a dar o máximo
de mim, os testes pareciam não
ter fim. Uma longa prova
escrita com 36 perguntas
sendo 30 o mínimo de
acertos para não ser
eliminado, foi o primeiro
grande desafio. Vencida esta
etapa, uma bancada com 3
instrutores eram orientados
a examinar cerca de 20
arremessos dos candidatos.
Me lembro como se fosse hoje
que, ao concluir a prova prática,
estava tão nervoso que não
agüentei esperar todos
terminarem para ser
divulgado o resultado final.
Para
aliviar a tensão, eu, minha
esposa Elen e um grande
amigo e guia de pesca de
Bariloche, Oscar Baruzzi,
tomamos o rumo da Rio
Pichileufus, pois somente
tendo algumas trutas na
ponta da linha minha
adrenalina voltaria ao
normal. Ao retornar ao hotel
no início da noite, fui
surpreendido no próprio
lobby com a feliz notícia
de que havia conseguido os
resultados necessários para
ser um instrutor de fly por
sua escola. Entramos noite
adentro comemorando aquela
grande vitória.
A
partir daquele momento me
senti preparado para criar
no Brasil a primeira escola
de pesca de fly a Escola
PESCAVENTURA uma vez
que na época poucos
pescadores dominavam este
estilo e muitos demonstravam
grande interesse pela
modalidade. Com a carência
de um método eficaz de
ensino, o aprendizado era
difícil, obrigando aqueles
curiosos a se iniciarem pelo
caminho mais complicado e
arriscado, pois sem uma
correta instrução o
pescador adquire vícios que
acabam limitando o seu
desenvolvimento.
Nesses
últimos 3 anos, a Escola
Pescaventura já formou
mais de 500 novos pescadores
de fly e vem se firmando com
um importante veículo de
difusão deste estilo de
pesca. Para que mais um
passo importante fosse dado
no sentido de implantar o
fly no Brasil, a escola
decidiu, em 2001, convidar
Mel Krieger e sua esposa
Fanny para participarem de
sua festa anual. Não só
estiveram presentes ao
evento, que contou com cerca
de 400 pessoas, mas Mel também
realizou uma clínica avançada
de fly para 22 alunos que
tiveram a oportunidade de
receber muitas dicas e
novidades e com isso aperfeiçoar
sua técnica.
O
GRANDE MOMENTO – PESCANDO
COM O MESTRE
Como
era a primeira vez que Mel
Krieger e Fanny vinham ao
Brasil, não podia deixar
que retornassem aos EEUU sem
conhecer um pouco do nosso
potencial de pesca
esportiva. No dia seguinte
ao da festa do PESCAVENTURA,
embarquei com o casal
Krieger rumo ao Rio São
Benedito localizado no sul
do Estado do Pará para que
conhecessem uma de nossas
melhores estruturas de pesca
esportiva: a Pousada
Salto do Thaimaçu.

Logo
na primeira tarde, ainda
cansados da longa viagem,
optamos por gastar aquelas
poucas horas em frente à
Pousada. O resultado não
poderia ter sido mais agradável.
No segundo arremesso nas
corredeiras, Fanny sentiu
uma forte trancada em sua
linha e mal havia dado conta
do que estava acontecendo um
pacu borracha ágil e forte
saltou quase um metro fora
d’água, como se estivesse
dando as boas vindas para
nossos ilustres convidados.
Mel e eu nos divertíamos
vendo seu esforço numa
briga que exigia habilidade
e experiência, atributos
que uma pescadora de sua
qualidade tem de sobra.
Mel,
que até aquele momento só
observava sua companheira de
muitos anos, caminhou
calmamente para a margem e
observou a água por alguns
momentos, tentando sentir
onde estariam os peixes.
Linha fora da vara, seus
movimentos eram suaves e
precisos e a linha fluía
com graça e absolutamente
controlada. Eu procurava
observar todos os detalhes
para aprender e captar o máximo
possível: era a realização
de um sonho.
Minha
contemplação foi
repentinamente quebrada
quando percebi que sua linha
esticava rapidamente como se
um torpedo a estivesse
puxando para dentro da água.
Os músculos de Mel se
retesaram no momento da
fisgada e imediatamente ele
levantou o máximo possível
a vara acima da cabeça para
livrar o líder de alguma
ponta de pedra mal
intencionada.
Pacu saltando e
correndo de um lado para o
outro, sem ter
a mínima idéia que
seu oponente era Mel
Krieger, um dos maiores
pescadores de fly do mundo.
Com extrema habilidade e
intensa satisfação, ele
dominou aquele peixe, seu
primeiro pacu borracha, uma
espécie que jamais havia
ouvido falar e nem imaginava
ser tão esportivo.

Nos
3 dias seguintes, nosso
objetivo foi pescar o TUCUNARÉ
, pois eu tinha
certeza que a esportividade
deste peixe encantaria
definitivamente o casal e
eles teriam uma experiência
inesquecível em nosso país.
Apesar de não terem pescado
nenhum exemplar de melhor
tamanho naquele dia, tiveram
a oportunidade de conhecer
outras espécies como a
matrinxã, a bicuda e o
jacundá. Depois de
retornarem à pousada, já
se sentiam pescados e
plenamente satisfeitos com a
viagem.

No
segundo dia saímos bem cedo
para aproveitar o horário
mais ativo dos tucunarés na
região. Enquanto eu
trabalhava com streamers
buscando os peixes que
estavam mais profundos, Mel
insistia nas iscas de superfície,
pois queria ver o ataque do
agressivo tucunaré. Sua
isca pousava na água com
graça e exatamente no ponto
desejado. O mestre do fly
justificava plenamente sua
fama.
Logo
no início da manhã, ao
executar mais um de seus
preciosos arremessos, uma
onda se formou junto a uma
galhada tão logo a isca
tocou a água. Meu coração
bateu forte e só pude
perceber um sutil toque na
linha. A isca deslizou
alguns centímetros para a
frente e o
som explodiu como uma bomba.
No momento que a isca
desapareceu, Mel fisgou
rapidamente e um sorriso
maroto indicava que estava
seguro e pronto para a
briga. Ele tinha pleno domínio
da situação e trabalhou
aquele belo tucunaré com
grande maestria. Após a
liberação do peixe, falou
pausadamente: “Rubinho,
o tucunaré é um dos peixes
mais agradáveis de se
pescar. Eu estou muito
impressionado.”
A
partir daquele momento,
relaxei e tive um dos
melhores dias de pesca de
minha vida. Trocamos muitas
informações e aproveitei
para perguntar tudo o que
vinha na minha cabeça. E,
entre
uma dica e outra, os peixes
iam atacando nossas iscas e
chegamos, inclusive, a fazer
alguns dublês ao longo
dessa pescaria.
No
último dia, fizemos uma
pescaria bem mais tranqüila,
pois tanto ele como Fanny já
haviam pescado diversos
tucunarés, além de outras
espécies. Só não tivemos
tempo de ir em busca dos
trairões que, com sua fúria,
é outro peixe esportivo
representativo daquelas águas.
A
pesca esportiva no Brasil
ganhou muito com a vinda
deste casal que tanto tem
feito pela pesca de fly em
todo mundo. Ganhamos também
um novo embaixador que
divulgará para todos os
povos o potencial de pesca
das águas brasileiras.
