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CONHECENDO ALÉM DA FAMA
RUBINHO ALMEIDA PRADO

 “Não há prazer maior do que realizar um sonho esperado por muitos anos. Imaginem uma pessoa apaixonada por futebol poder estar trocando bola e papo por vários dias com nada menos que o Rei Pelé. É bom demais, não é mesmo !!! Esta foi a emoção que tive ao pescar com Mel Krieger. "   

No início dos anos 90, logo quando levei ao ar o primeiro programa de pesca da televisão brasileira, recebi de um amigo pescador, Dedeu Cataldi, uma cópia de um vídeo sobre pesca de fly. Alertou-me para observar atentamente a leveza dos arremessos daquele famoso instrutor desta modalidade de pesca, cuja isca de tão leve necessita um equipamento específico para ser  arremessada. Aquela foi a primeira vez que ouvi falar de Mel Krieger, um norte americano de São Francisco, Califórnia, fundador de uma das maiores escolas de fly do mundo, The Mel Krieger International School of Fly Fishing.

Por muitas vezes ao longo dos anos, tive vontade de conhecer pessoalmente aquele pescador que, além de demonstrar exímia habilidade e domínio com a linha de fly, transmitia uma grande simpatia e didática ao falar dos fundamentos daquele estilo de pesca. Em 1997 surgiu a oportunidade de conhecer Mel Krieger e até fazer um rápido curso básico com ele. Isto só foi possível ao ser convidado como jornalista a participar de um congresso sobre trutas realizado na cidade de Bariloche na Argentina, uma vez que ele seria um dos palestrantes do evento. 

Ao retornar à Patagônia no ano seguinte, me inscrevi em um curso avançado e aceitei seu convite para tentar me formar instrutor por sua escola, pois havia decidido abrir 15 vagas naquela oportunidade. Suando frio, mas decidido a dar o máximo de mim, os testes pareciam não ter fim. Uma longa prova escrita com 36 perguntas sendo 30 o mínimo de acertos para não ser eliminado, foi o primeiro grande desafio. Vencida esta etapa, uma bancada com 3 instrutores eram orientados a examinar cerca de 20 arremessos dos candidatos. Me lembro como se fosse hoje que, ao concluir a prova prática, estava tão nervoso que não agüentei esperar todos terminarem para ser divulgado o resultado final. 

Para aliviar a tensão, eu, minha esposa Elen e um grande amigo e guia de pesca de Bariloche, Oscar Baruzzi, tomamos o rumo da Rio Pichileufus, pois somente tendo algumas trutas na ponta da linha minha adrenalina voltaria ao normal. Ao retornar ao hotel no início da noite, fui surpreendido no próprio lobby com a feliz notícia de que havia conseguido os resultados necessários para ser um instrutor de fly por sua escola. Entramos noite adentro comemorando aquela grande vitória.

A partir daquele momento me senti preparado para criar no Brasil a primeira escola de pesca de fly a Escola PESCAVENTURA uma vez que na época poucos pescadores dominavam este estilo e muitos demonstravam grande interesse pela modalidade. Com a carência de um método eficaz de ensino, o aprendizado era difícil, obrigando aqueles curiosos a se iniciarem pelo caminho mais complicado e arriscado, pois sem uma correta instrução o pescador adquire vícios que acabam limitando o seu desenvolvimento.

Nesses últimos 3 anos, a Escola Pescaventura já formou mais de 500 novos pescadores de fly e vem se firmando com um importante veículo de difusão deste estilo de pesca. Para que mais um passo importante fosse dado no sentido de implantar o fly no Brasil, a escola decidiu, em 2001, convidar Mel Krieger e sua esposa Fanny para participarem de sua festa anual. Não só estiveram presentes ao evento, que contou com cerca de 400 pessoas, mas Mel também realizou uma clínica avançada de fly para 22 alunos que tiveram a oportunidade de receber muitas dicas e novidades e com isso aperfeiçoar sua técnica.   

       

O GRANDE MOMENTO – PESCANDO COM O MESTRE 

Como era a primeira vez que Mel Krieger e Fanny vinham ao Brasil, não podia deixar que retornassem aos EEUU sem conhecer um pouco do nosso potencial de pesca esportiva. No dia seguinte ao da festa do PESCAVENTURA, embarquei com o casal Krieger rumo ao Rio São Benedito localizado no sul do Estado do Pará para que conhecessem uma de nossas melhores estruturas de pesca esportiva: a Pousada Salto do Thaimaçu

Logo na primeira tarde, ainda cansados da longa viagem, optamos por gastar aquelas poucas horas em frente à Pousada. O resultado não poderia ter sido mais agradável. No segundo arremesso nas corredeiras, Fanny sentiu uma forte trancada em sua linha e mal havia dado conta do que estava acontecendo um pacu borracha ágil e forte saltou quase um metro fora d’água, como se estivesse dando as boas vindas para nossos ilustres convidados. Mel e eu nos divertíamos vendo seu esforço numa briga que exigia habilidade e experiência, atributos que uma pescadora de sua qualidade tem de sobra.  

Mel, que até aquele momento só observava sua companheira de muitos anos, caminhou calmamente para a margem e observou a água por alguns momentos, tentando sentir onde estariam os peixes. Linha fora da vara, seus movimentos eram suaves e precisos e a linha fluía com graça e absolutamente controlada. Eu procurava observar todos os detalhes para aprender e captar o máximo possível: era a realização de um sonho. 

Minha contemplação foi repentinamente quebrada quando percebi que sua linha esticava rapidamente como se um torpedo a estivesse puxando para dentro da água. Os músculos de Mel se retesaram no momento da fisgada e imediatamente ele levantou o máximo possível a vara acima da cabeça para livrar o líder de alguma ponta de pedra mal intencionada.  Pacu saltando e correndo de um lado para o outro, sem ter  a mínima idéia que seu oponente era Mel Krieger, um dos maiores pescadores de fly do mundo. Com extrema habilidade e intensa satisfação, ele dominou aquele peixe, seu primeiro pacu borracha, uma espécie que jamais havia ouvido falar e nem imaginava ser tão esportivo. 

         

Nos 3 dias seguintes, nosso objetivo foi pescar o TUCUNARÉ, pois eu tinha certeza que a esportividade deste peixe encantaria definitivamente o casal e eles teriam uma experiência inesquecível em nosso país. Apesar de não terem pescado nenhum exemplar de melhor tamanho naquele dia, tiveram a oportunidade de conhecer outras espécies como a matrinxã, a bicuda e o jacundá. Depois de retornarem à pousada, já se sentiam pescados e plenamente satisfeitos com a viagem.

No segundo dia saímos bem cedo para aproveitar o horário mais ativo dos tucunarés na região. Enquanto eu trabalhava com streamers buscando os peixes que estavam mais profundos, Mel insistia nas iscas de superfície, pois queria ver o ataque do agressivo tucunaré. Sua isca pousava na água com graça e exatamente no ponto desejado. O mestre do fly justificava plenamente sua fama. 

Logo no início da manhã, ao executar mais um de seus preciosos arremessos, uma onda se formou junto a uma galhada tão logo a isca tocou a água. Meu coração bateu forte e só pude perceber um sutil toque na linha. A isca deslizou alguns centímetros para a frente e o som explodiu como uma bomba. No momento que a isca desapareceu, Mel fisgou rapidamente e um sorriso maroto indicava que estava seguro e pronto para a briga. Ele tinha pleno domínio da situação e trabalhou aquele belo tucunaré com grande maestria. Após a liberação do peixe, falou pausadamente: “Rubinho, o tucunaré é um dos peixes mais agradáveis de se pescar. Eu estou muito impressionado.” 

A partir daquele momento, relaxei e tive um dos melhores dias de pesca de minha vida. Trocamos muitas informações e aproveitei para perguntar tudo o que vinha na minha cabeça. E, entre uma dica e outra, os peixes iam atacando nossas iscas e chegamos, inclusive, a fazer alguns dublês ao longo dessa pescaria. 

No último dia, fizemos uma pescaria bem mais tranqüila, pois tanto ele como Fanny já haviam pescado diversos tucunarés, além de outras espécies. Só não tivemos tempo de ir em busca dos trairões que, com sua fúria, é outro peixe esportivo representativo daquelas águas. 

A pesca esportiva no Brasil ganhou muito com a vinda deste casal que tanto tem feito pela pesca de fly em todo mundo. Ganhamos também um novo embaixador que divulgará para todos os povos o potencial de pesca das águas brasileiras.   

ROTEIRO

 

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