- O
OURO VIVO DA AMAZÔNIA
- ÁDAMO
GONÇALVES
Na
imensidão da floresta amazônica,
isolados num pequeno afluente
do Rio Madeira a uma hora de vôo
de MANAUS
,
estávamos
acampados em território
selvagem em busca dos grandes TUCUNARÉS
, açus e pacas (Cichla
temensis), conhecidos
ainda como peixe-pavão (peacock
bass) que, em meados da década
de 90, foram responsáveis
pela explosão do turismo em
regiões antes inacessíveis
aos pescadores esportivos.
Hoje,
mais de 2,5 mil pessoas
visitam o Estado do Amazonas
anualmente atrás desses
peixes, verdadeiras minas de
ouro que fazem da Amazônia o
maior pesqueiro do mundo. Desse
total, 70% são pescadores
estrangeiros - a maioria dos
Estados Unidos -, que não
poupam esforços para topar de
frente com um açu de até dez
quilos ou um paca de seis ou
sete quilos. Peixes desse
porte não são tão comuns
como se imagina, mas o
pescador que vai aos rios amazônicos
sempre encontra pelo menos um
que vai eternizar em
fotografias e vídeos e
apresentá-lo como troféu de
uma conquista exaustiva, mas
muito gratificante.
As
saídas para os confins da
bacia amazônica sempre
acontecem em Manaus, onde
semanalmente grupos deixam a
capital amazonense em
barcos-hotéis e hidroaviões.
Hoje em dia, a pescaria mais
popular é feita em barcos-hotéis,
que recebem grupos de até 12
pescadores. Deixando Manaus,
os grandes barcos levam toda a
infra-estrutura para a
pescaria: voadeiras, motores
de popa e elétricos, combustível,
alimentação e bebidas - numa
jornada que pode passar de 30
horas de navegação para
alcançar afluentes de médio
e pequeno porte, o mais longe
possível da pesca
profissional.
De
julho a novembro, praticamente
todas as estruturas voltadas
à pesca esportiva buscam os
rios ao sul do Solimões. Os
dois maiores são o Purus e o
Madeira. Mas, para encontrar
os bons cardumes, é preciso
subir afluentes chamados de
terceira ou quarta categorias,
ou seja, rios distantes da
calha do Rio Negro, do Solimões
ou do próprio Rio Amazonas.
Outros tipos de estrutura que
recebe os pescadores são os
hotéis de selva, que podem
abrigar 30 ou mais pescadores.

Mas
o mais badalado sistema de
pesca entre os pescadores
brasileiros e a preferência
dos norte-americanos é o
sistema de bangalôs
flutuantes. São acampamentos
que se deslocam de acordo com
a movimentação dos cardumes
e podem chegar a regiões onde
os barcos-hotéis e a pesca
profissional (com redes) não
alcançam pela distância e
por causa das barreiras
naturais, como corredeiras e
cachoeiras. Para se chegar aos
bangalôs, é necessário um vôo
que varia de 50 minutos a
1h30min, de acordo com a
localização do acampamento,
que também muda durante a
semana de pesca em função do
nível das águas e da ação
dos peixes. Justamente essa
mobilidade que desperta o
interesse pelos bangalôs
flutuantes.
Foi
num desses acampamentos que
ficamos, junto com pescadores
do Paraná, São Paulo e dos
Estados Unidos.
SOBREVOANDO
O PESQUEIRO

Nosso
destino, depois de uma noite
mal dormida em Manaus por
causa da ansiedade, seria o
Rio Matupiri, que na verdade
é um braço do Rio Preto do
Igapó-Açu, um dos afluentes
do Rio Madeira. Embarcamos por
volta do meio-dia num hidroavião
Caravan com capacidade para
oito passageiros e 50 minutos
depois já sobrevoávamos o
Matupiri, um rio de águas
escuras semelhantes ao Rio
Negro.
Na
descida, a floresta cresce e o
rio estreito visto de cima se
agiganta abaixo do avião. O
pouso suave acontece em frente
aos bangalôs, apoitados na
margem esquerda do Matupiri,
onde somos recebidos por um
funcionário da RIVER
PLATE ANGLERS
- proprietária do
acampamento -, que explica o
funcionamento dos flutuantes e
orienta o grupo sobre os horários
de pesca. Com as malas
devidamente alojadas em nosso
bangalô, depois de 15 minutos
já estávamos dentro do barco
que nos levaria durante uma
semana aos igarapés, lagoas e
ressacas atrás dos tucunarés
do Rio Matupiri. Ao meu lado,
o parceiro Eduardo Ferraz, de
Curitiba (PR).
Montamos
os equipamentos enquanto o
guia subia o rio em direção
às lagoas e trechos na calha
do rio onde, na semana
anterior, um grupo de
norte-americanos obteve uma
boa média diária de peixes
(30 por barco/dia). Dez
minutos de navegação com
motor 18 hp e estávamos na
entrada de uma lagoa. A tensão
é grande quando se tem a
chance de pescar nos domínios
dos grandes tucunarés. Mesmo
com o barco fora da posição
ideal, arremessei uma zara
rente ao barranco.
Pronto.
A pescaria realmente começou.
O
barco foi entrando na lagoa
com o auxílio do motor elétrico
enquanto lançávamos nossas
iscas sempre na direção da
margem e das galhadas expostas
ou submersas. Eduardo
arremessa uma isca Amazon
Ripper e logo no primeiro
toque de recolhimento um
tucunaré-açu surge da água
escura como um torpedo, erra
duas vezes até acertar o
bote. Tinha cerca de dois
quilos, mas deixou a alegria
transparente em nosso barco
depois de liberado. "Não
é que o bicho ataca mesmo
essa isca", disse
Eduardo, que, como eu, ainda
duvidava da eficiência de
iscas tão grandes e
barulhentas.
FESTA
DURANTE A TEMPESTADE
O
amanhecer na floresta é
sempre nebuloso. Nessa época
do ano (novembro) é
praticamente impossível
prever se o dia será de sol
ou se vai permanecer nublado.
No entanto, nas duas situações
o calor está sempre presente,
sufocante. Deixamos o
acampamento bem cedo e
partimos rio acima em direção
às dezenas de lagoas. A chuva
que até então ameaçava
estragar a pescaria desabou de
vez e fez com que procurássemos
águas mais calmas.
No
centro do canal de entrada de
uma das mais lindas lagoas do
Matupiri, no primeiro
arremesso o Eduardo engatou um
paca de quase três quilos.
Arremessei no mesmo local e
nada. Mais um lançamento e
nem sinal dos peixes. No
terceiro arremesso, a zara foi
engolida por um monstro que não
tomou conhecimento da linha 40
libras. Partiu com tudo para o
fundo e mesmo antes de chegar
à galhada a linha já estava
rompida.

Refeito,
e com uma nova isca preparada,
arremessei outras vezes no
mesmo ponto e nada. A batida
de dois peixes de bom porte
parecia ter inibido novos
ataques. Navegamos mais alguns
metros pelo canal até que um
estrondo perto da margem
denunciou a presença dos
tucunarés. Não eram grandes,
mas estavam por toda parte. Açus,
pacas e amarelinhos. Todos
juntos atacando o que se
movesse dentro d'água. Uma
traíra entrou na briga e
acabou fisgada.
Uma
boa alternativa para
selecionar ataques de peixes
maiores nessa situação é
usar as iscas grandes. Uma Amazon
Ripper riscou a água e a
pancada foi certeira. Um açu
de quatro quilos estava na
linha. E que briga! Três
corridas muito fortes até se
cansar e encostar-se ao barco.
No segundo arremesso com a
mesma Amazon Ripper,
outra explosão. Seguimos até
o final da lagoa com ações
por todos os lados. Foram
cinco ou seis peixes de
tamanho razoável para o início
da manhã.
Por
volta do meio-dia, a chuva
intensificou e bateu um desânimo.
Mas o guia orientou a
buscarmos as pontas rasas
dentro das lagoas. E deu
certo. Enquanto nosso barco
enchia com o dilúvio, os
peixes batiam na caída da
isca. Em três lances, duas
iscas perdidas. A primeira
para um grande paca e a
segunda para uma traíra que
meteu os dentes na linha. Mas
tudo era festa dentro da
lagoa. Entusiasmado com as ações,
meu parceiro
tentou um lançamento mais
longo e acertou o topo de um
tronco seco de quase dez
metros. Era sua única Amazon
Ripper e ela poderia fazer
falta nos cinco dias
seguintes.
CARA
A CARA COM O RECORDE
No
início da tarde do dia
seguinte, paramos na boca de
uma lagoa e de cara o Eduardo
engatou um belo tucunaré
paca. Imediatamente lancei uma
Zagaia num ponto raso,
com fundo de areia visível.
Mais rápido que os outros, um
paquinha de um quilo atacou a
isca e tentou fugir em direção
ao meio do rio, mas não teve
sorte. Um enorme açu o
engoliu com isca e tudo e
partiu como uma bala lagoa a
dentro, rompendo o líder.
Assistindo
aquela cena, o guia Nei
arremessou uma Woodchopper
no mesmo raseiro e um paca de
quatro quilos bateu. Foi
embarcado, fotografado e
liberado rapidinho. Hav ia ali
um grande cardume, com peixes
muito grandes caçando juntos.
Voltamos a posicionar o barco
e em questão de minutos o
Eduardo já havia capturado
quatro pacas. A cada isca na
água, um susto.
Entramos
e saímos da lagoa com muitas
ações. Durante a navegação
de volta ao acampamento,
conversamos sobre o peixe que
havia engolido o paquinha.
Segundo o Nei, estivemos de
frente com o peixe da
temporada no Matupiri. Durante
o ano, o maior peixe capturado
por lá foi um açu de 19
libras. "Aquele era
maior", garantiu.
A
HORA DOS TROFÉUS
Desde
o primeiro dia no Matupiri,
encontramos peixes de todos os
tamanhos. Os pequenos eram fáceis
de achar, mas faltava embarcar
o peixe da viagem. O maior
embarcado era um tucunaré-açu
de 4,5 quilos. Tínhamos uma
tarde e o último dia para
tentar encontrá-lo. A
alternativa era usar somente
iscas grandes (Amazon Ripper e
Woodchopper) e preparar o braço
para centenas de arremessos
com um conjunto médio-pesado.
Estava convencido de que essa
seria a última chance de
capturar um "troféu".
Durante
a tarde, consegui dois pacas
abaixo dos quatro quilos num
local que prometia melhores ações
não fosse a presença de dois
botos fazendo um estardalhaço
na entrada da lagoa. De volta
à calha do Matupiri, começamos
a descer o rio em direção ao
acampamento, que estava a 40
minutos de navegação.
Paramos numa lagoa bem menor e
mesmo antes do barco se
posicionar, lancei uma
Woodchopper lá dentro, rente
à margem. A uns cinco metros
do barco, um grande rebojo.
Recolhi rápido e arremessei
próximo onde a isca havia caído
da primeira vez. Dei duas
puxadas e um tucunaré
explodiu de tal forma que
quase levou o equipamento. Uma
fisgada firme para confirmar e
foi só segurar as corridas do
bicho. Era uma fêmea das
grandes e estava muito magra.
Embarcamos o peixe e ficamos
surpresos com o peso: 9,5
libras, ou seja, menos de
cinco quilos. O próprio guia,
acostumado a medir e pesar (e
acertar) o peixe no olhômetro,
ficou decepcionado com o peso
daquela fêmea. Era peixe para
sete ou oito quilos, pelo
menos.
No
último dia de pescaria saímos
do acampamento quase às 8
horas, ainda com céu nublado
e uma chuva fina nos
acompanhando. Não iríamos
muito longe, pois o aguaceiro
poderia voltar a qualquer
momento. Bastaram cinco
minutos e já estávamos
arremessando numa ressaca na
margem esquerda do Matupiri,
que naquele momento já não
lem brava o rio estreito que
conhecemos uma semana antes. O
nível das águas subiu mais
de metro nos últimos dias e
estávamos a cerca de duas
horas de seu encontro com o
Rio Preto do Igapó-Açu.
Insistindo
com a Woodchopper, a isca
preferida pelos pescadores
norte-americanos que vão à
Amazônia, nosso guia
encontrou um grupo de grandes
açus caçando próximo da
margem. Lançou pelo menos dez
vezes no mesmo local até um
tucunaré "comer" a
isca. O bichão tentou correr,
mas foi seguro por uma linha
multifilamento 50 libras.
Mesmo menor que outros
exemplares capturados durante
a semana, aquele açu estava
gordo e pesou 14 libras. Era o
peixe que faltava para dar
novo ânimo ao último dia de
pescaria. Além disso, ele
atraiu a sorte para o nosso
barco.
Entramos
numa lagoa alguns minutos rio
acima com tempo bom e o calorão
de volta. Na Amazônia é
assim: do aguaceiro ao sol
escaldante em questão de
minutos. Estava com um
conjunto 17 libras e lancei a
João Pepino entre uma árvore
e a margem. A água estava
mais cristalina naquele ponto
e pude ver um grande açu
saindo do fundo de mansinho e
engolindo a isca. Imaginei:
"vai quebrar a vara, a
linha e a isca". Mas não.
Ao invés de correr para o
pau, o peixe cabeceou na
superfície, tentando se
livrar da isca, e por lá
ficou. A varinha 17 libras
estava no seu limite e aos
poucos consegui rebocar aquele
belo peixe até o barco. Mesmo
magro, pesou 11,5 libras.
À
tarde, as ações continuaram
escassas e mais dois ou três
peixes entraram, todos
pequenos. A viagem terminava
ali, novamente com o tempo
fechando e alguns trovões bem
longe anunciando chuva. O incrível
foi fisgarmos os maiores
peixes da viagem no último
dia, quando nem as condições
do tempo nem nossas condições
físicas ajudavam.
DICAS

AGRADECIMENTOS
Nossa
participação na viagem ao
Rio Matupiri só foi possível
graças ao apoio da
Prefeitura
de Volta Redonda,
da
River
Plate Anglers, da Fishing
Safaris Turismo
(02141-233-0723) e jornal
Diário
do Vale.
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