- RIO
UNINI: REPLETO DE PEIXES
POR TODOS OS LADOS
- EZEQUIEL
THEODORO DA SILVA
Para
quem, como eu, que entra numa
pescaria para interagir
intensa e emocionalmente com a
Natureza, uma viagem
para o meio da floresta amazônica
é sempre um motivo para a
imediata entrada no universo
das surpresas agradáveis,
isto é, das coisas
maravilhosas que
inevitavelmente vão acontecer
Henry
Wotton, também professor
, só que dos tempos bem
antigos (Século XVII), já
afirmava que a pesca "descansa
a mente, alimenta o espírito,
combate a tristeza, acalma os
maus pensamentos, modera as
paixões e indica os caminhos
da alegria". Para
mim, a pesca esportiva é tudo
isso, somando o fato de que,
se realizada com um grupo de
bons parceiros, ela nos
revigora a paz e restabelece
as lembranças sadias,
misturando-se a outras mais.
O
rio Unini, afluente do Negro,
era pintado em minha mente com
ares de mistério. Não porque
fossem águas totalmente
desconhecidas, mas porque toda
a Amazônia brasileira tem
esse dom - ou poder - de
fazer com que nós, sulistas,
antecipadamente fabriquemos
fantasias o tempo todo.
Fantasias que misturam as
lendas e os mitos encarnados
na intrincada floresta ou no
fundo dos fabulosos rios que
entrecortam toda a região.
Pescar na Bacia Amazônica é
sempre sinônimo de grandes ações
e recordações.
PULO
PARA DENTRO DO CENÁRIO
Chega
um determinado momento na
nossa vida em que
"qualidade" é
fundamental. Depois dos 50
anos (como eu, agora em 2001,
com 53 anos), a gente deseja
muita qualidade na
infraestrutura e no
atendimento que nos é dado
pela pousada. Caso os peixes não
apareçam para as
brigas, essa parte pode
amenizar significativamente
uma ou outra frustração.
No
caso do ECOTUR LODGE UNINI,
estrutura e atendimentos
atingem as raias da perfeição.
Tudo funcionou nos trinques e
nos "drinques", sem
que houvesse quaisquer senões
no que se refere à parte de
hotelaria - tudo limpo e
asseado, tudo bem organizado,
com realmente deve ser o
turismo de primeira linha na
área de pesca esportiva.
E
tem mais: o botel está
atracado num verdadeiro oceano
de rios e lagos. De certa
forma, é praticamente impossível,
numa única temporada,
conhecer todos os pontos de
pesca ali existentes. Como
existem várias cachoeiras a
jusante do hotel, é impossível
encontrar embarcações de
pescadores profissionais na
região - isto é mais uma
garantia de fartura de peixes
de grande porte.
RIO
UM POUCO CHEIO, MAS
LOCALIZAMOS OS BITELOS
Pescadores
amigos que tinham viajado para
este local do Unini (ou um
pouco mais abaixo) me
relataram que as iscas
artificiais tinham que ser
grandes, preferencialmente de
hélice de superfície para
estimular os agressivos
ataques dos big tucunarés da
região.
Eu
já tinha adquirido, tempos
atrás, aquelas salsichonas,
com hélices por todos os
lados. E foi excelente a
oportunidade para tirá-las da
embalagem para enfrentar os açus
que atingem tamanhos
desproporcionais nas águas do
Unini.
Achando
grande demais a iscas
recomendadas pelos amigos,
comecei pescando com uma
torpedinho bem menor. E
confesso que na segunda
riscada que ela deu na água,
foi um tremendo bafafá na água
- um bafafá tão rápido e tão
violento que até hoje fico me
perguntando que destino levou
aquela isca.
Aprendi
muito rápido a lição:
melhor prevenir do que
remediar. Neste caso, além de
um empate de aço na ponta da
linha, redobrei o tamanho dos
snaps e só pesquei com
artificiais acima de 15 cm.
Muitas delas, coitadas, estão
todas picotadas pelas
abocanhadas ferozes dos tucunões.
TUCUNAS
PRÓXIMOS A PANELAS
As
melhores ações e brigas
aconteceram nas partes rasas
dos rios que desembocam no
Unini, principalmente no Rio
preto da Eva. A água desse
rio é de um ocre enferrujado,
como um vinho espanhol
envelhecido. A transparência
da água permite ver os ninhos
(panelas) dos tucunarés e,
muitas vezes, os próprios
tucunarés fazendo guarda
permanente.
O
chiado do risco das hélices
na superfície da água fazia
com que os açus fossem
levados ao máximo no que se
refere à ferocidade dos
ataques. O instinto de defesa
dos ninhos punha mais tempero
nos ataques e por vezes fazia
o peixe borbulhar a sua veloz
trajetória na água a fim de
brigar com as iscas intrusas.
Com
as águas ainda um pouco altas
(final de novembro-2000), os
ataques não foram contínuos
e nem constantes. Todos nós
da caravana tivemos que
procurar o peixe e fazer
muitos arremessos para
produzir as boas brigas. Vale
ressaltar que, quando o peixe
aparecia e atacava, era de
esperar, sempre, um marruá
acima de 5 ou 6 quilos.
PIRARARAS
E OUTROS PEIXES

Na
primeira pescaria de peixe
liso, eu nem tive a chance de
ver a cara do bicho. Eu até
que estava bem abastecido: uma
carretilha PENN com 300
metros de linha Plaway 0.70 mm
para peixe nenhum me botar de
molho. Mas novamente fui pego
de calças curtas: o peixe fez
que vinha e não veio.
Arremeteu na direção oposta,
tomando linha e me forçando a
colocar os dois calcanhares na
borda do barco para não ir
junto para dentro da água.
O
fato é que nem fricção
regulada e nem manejo
experiente foram suficientes
para fazer o bicho se
entregar. Ele tomou uns 100
metros de linhas e deve ter
astutamente dando a volta num
pau submerso para não perder
a batalha com este pescador
que, naquela hora, estava
suando feito bica, com dores
nas munhecas e com descargas
de adrenalina para passar o
2001 inteiro.
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PITIÚ
E FUMO NA LINHA
Há
mais coisas em
pescarias do que
pode explicar a
nossa vã filosofia.
Veja só a sabedoria
dos ribeirinhos a
favor dos turistas
pescadores.
Para
atrair os peixes
lisos ou de couro
(piraíba, filhote,
pirarara, jaú e
cachara, o guia,
quando poitavamos,
fazia um pitiú -
viscerava um peixe
pequeno ao lado da
popa, limpando-o
dentro da água para
esparramar o cheiro.
Depois, amarrava o
peixe dentro da água
para efeito de maior
atração.
A
primeira pirarara
(uns 30 quilos) com
que briguei não
queria se entregar
de forma nenhuma.
Soltamos o barco,
mas a danada empacou
no meio do Rio Preto
e não se mexia e não
se entregava de
jeito nenhum.
O
piloto tirou um
cigarro do maço,
tirou o papelete,
encheu a mão
direita de fumo e
passou-o na linha da
pirarara. Em não
mais que 10 minutos
ela aflorou, zonza e
dócil como quê. |
Nenhum
ponto negou peixe de couro,
principalmente pirararas
acima de 20 quilos.
Brigadeiras, fazendo aquelas
cavalarias de corrida de
turfe, a perder de vista, e
se entregando apenas quando
as suas forças tinham
acabado.
Ainda
apareceram, por ordem de
puxadas: trairão, jacundá
(sabonete) e cará papagaio.
Falando nisso, fisguei um
cará imenso, que jamais
tinha visto tamanho
igual - era de um colorido
belíssimo, semelhante ao de
um arco-íris com destaque
ao amarelo brilhante. A
soltura para a sua liberdade
foi feita com especial
carinho, fazendo justiça a
sua beleza.
MAIS
UMA GAVETA NA MEMÓRIA
Nós,
pescadores esportivos, somos
seres privilegiados. Isto
porque cada pescaria serve
para inserir uma nova gaveta
nesse grande armário
chamado "memória".
É interessante que as histórias,
igual às gavetas, não se
misturam, sendo abertas em
momentos especiais, quando
temos que narrar o enredo e
produzir algum tipo de
argumento.
 
Posso
dizer que esta pescaria no
Rio Unini serviu para a
construção de uma gaveta
cheia de ricos conteúdos.
Para compor este relato,
retirei e destaquei um pouco
desses conteúdos porque
foram aqueles que a memória
conseguiu produzir.
Creio
que todos os pescadores
sabem haver muito mais nas
nossas aventuras de pesca:
de repente, seja em sonho ou
bate-papo, os outros conteúdos,
meio adormecidos, afloram à
mente e reforçam ainda mais
a nossa condição de
personagem muito especial
das aventuras buscadas.
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