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TUCURUÍ
WILSON MORAIS
TÁ TUDO DOMINADO

Primeiro de tudo, a melhor de todas as providências: arrumar a tralha para a pescaria que se avizinha. É na sexta-feira, quando embarco pra Tucuruí  esperançoso de fisgar aqueles monstros dos tucunarés que dizem habitar o gigantesco lago. Já reforcei as iscas com garatéias parrudas, escolhi varas de libragem considerável (12-25 lbs) e linhas de muito respeito (0,37 mm). E uma vara levinha, só pra fazer farol arremessando nos intervalos da pesca mais pesada. Com isso, imagino, arranco da água até jacaré pelo rabo, e mesmo uma capivara das gordas. Tá dominado! Tá tudo dominado! ­ isso a cada fisgada.  Mas, dizem os de lá que isso ainda é material meio fraco. Tomara! Não duvido muito, mas também não acredito tanto. 

Tudo pronto, chapéu e bagagem na mão. Pego a passagem lá mesmo no aeroporto. Aliás, é bom que se diga: com o preço duma dessas passagens pra Amazônia dá pra ir à Europa e voltar, na média estação. Depois há quem reclame que o turismo no Brasil não se desenvolve. Também, pudera! Pena que o Sena não tenha tucunarés, senão eu ia mesmo é pra Paris, e, de quebra, tomava uns bons tintos e perneava solenemente pela Champs-Elysées afora. Mas vou pra Amazônia, primeira vez; e a vontade de pescar é infinitamente maior do que a de revisitar Montmartre, o Louvre, e ver de novo a misteriosa e imutável cara da Mona Lisa.

Repasso o material; ando nervoso, ansioso. Será que criarão caso comigo na companhia aérea por causa do tubo de varas? É um tubão respeitável, dois metros. Pro Pantanal nunca tive problemas, mas lá já estão  acostumados com os pescadores e seus enormes tubos. E, se não forem os pescadores para lá, quem mais iria?

Um vôo pingado é o que me aguarda - reduziram os vôos para aquela região por conta da crise na aviação civil. A exorbitância do preço das passagens certamente explica a raridade de passageiros.

Congonhas, Brasília, Marabá e, finalmente,
TUCURUÍ , já pelo meio da tarde. Confio que minha tralha chegará junto comigo, mesmo ciente de que após tantos pousos, decolagens e trocas de avião, o risco de se perdê-la aumenta exponencialmente. E minhas varinhas podem ir parar no Usbequistão ou em algum lugar na África Central, como acontece de vez em sempre nessas viagens.  Bato firme na madeira, esconjuro três vezes, e penso vagamente nos tucunarés, que mal sabem o perigo que correm. Na verdade, nenhum; pois que só pretendo assustá-los um bocado, praticando o pesque-solte.

Confiro o material umas três vezes: cigarro, cuecas, documentos, varas, iscas, alicates, linhas de reserva, carretilhas, a garrafa de meu uísque preferido ­ aquele americano, cujo nome não cito, pra não fazer merchandising de graça. Tudo, enfim. Mas sei que alguma coisa essencial sempre ficará para trás; isso é invariável, apesar da extensa lista de checagem que mantenho. Já fui pescar com um amigo, que esqueceu, simplesmente, as carretilhas! Socorremos o cara emprestando-lhe as que tínhamos levado de sobra, mas não sem antes gozá-lo até a exaustão. Desde então, por precaução, elaborei minha lista básica, pra não pagar mico desse tamanho.

Mas hoje ainda é quarta, sexta está tão longe! Quarenta e oito longas horas ainda por girar nesse relógio que é lerdo feito uma tartaruga esclerosada. Tenho de inventar algo mais pra gastar o tempo que falta. Minha mulher já não agüenta mais minha impaciência. "Parece que espera um filho! Vá logo!" - diz ela. Um amigo me ofereceu uma carona por terra, sai hoje e vai de carro, porque ficará lá por uns tempos a negócios. Mas eu refuguei -  afinal, são cerca de 2.800 quilômetros até lá.  Não dá pra encarar tanto chão, a despeito de meu medo atávico de avião.

Hoje e amanhã serão dois longos dias, sei disso. Mas espero compensar essa angústia com uma boa pescaria.

Tá tudo dominado! Tucuruí, me aguarde.

T
UCURUÍ
Pareço criança esperando o Natal, inquieto.

Depois de idas e vindas, a angústia de esperar a confirmação da reserva feita de última hora na companhia aérea - eta gente enrolada!- estou indo pra Tucuruí.

Bagagem complicada de pescador, ali tem de tudo, desde primeiros socorros até um par de óculos de reserva.

Os invariáveis probleminhas de embarque. O tubo, ah! o bendito tubo de varas é um trambolho considerável. E desperta certa curiosidade; todo mundo olha praquele cara com um tubo enorme na mão, que sou eu; o que será aquilo? imaginam de tudo, suponho.  Faço cara de que não é comigo, e prossigo impávido na fila do check-in, torcendo pra não implicarem com meu descomunal equipamento.

"Bagagem de mão?", pergunta a moça naquele seu jeito pasteurizado. E eu apresento minha caixa de pesca e a bolsa de carretilhas.

"Não quer despachar isso?", indaga. E eu respondo que nem morto, aquilo é mais valioso que ouro, e pode se perder pelo caminho; não largo, não empresto e não dou, e não embarco sem aquilo, se for o caso. Imagine que some. E aí, como fico? Faço o quê naquele fim de mundo sem minha tralha?

A pergunta dela, entretanto, é mera formalidade. Na verdade ela não liga a mínima para a minha inesperada eloqüência, e certamente ela não entende nada de "TPP", que vem a ser nada menos que "tensão-pré-pescaria", coisa grave e crônica que ataca sujeitos como eu. Ela nem responde,  não há no seu manual uma resposta adequada para tal situação. Mas também não insiste, apenas pergunta o que mais.

Indico o tubão e a mala de roupas, na sua maioria cuecas e meias.

Ela olha, olha..., parece duvidosa..., o tubo, o tubo...- puro suspense, vai criar caso com o tubo, eu tinha certeza! Ou sou eu que ando traumatizado com o diabo do tubo?...

Mas ela acaba preenchendo a etiquetinha, gruda-a no tubo, e empurra pra dentro o bicho, que desaparece por uma cortininha de plástico negro, num buracão sem fim.

Alívio!

Agora, um expresso puro, um cigarro aspirado com gosto, pra desfazer a tensão. E embarco em seguida. Por mera precaução, visto que voar é contra a natureza humana, faço minhas preces usuais a Deus, Jeová, Maomé, Buda, Ogum e Oxalá. E, saravá, meu irmão, lá vou eu!  Aperto o cinto e aguardo impaciente a decolagem.  

São 9:16 da manhã.

A esta hora, imagino, os tucunarés estão começando a passear em busca de suas vítimas. Hora dessa, amanhã, eles verão o que é bom pra tosse!

Brasília, desembarque. Embarco num avião menor, rumo a Marabá. Tudo bem até aqui. Espero que minha bagagem tenha embarcado para o mesmo destino que eu.  Decolamos, e logo a paisagem muda. Lá embaixo há uma terra enrugada, mostrando que ali, há milhões e anos, alguma coisa remexeu aquilo tudo, deixando marcas no chão, como antigos quelóides. É a Serra da Mesa, Goiás, e o lago da barragem de mesmo nome. Menor em tamanho que Tucuruí, mas maior em volume d'água devido à topografia da região. Duas horas e quarenta minutos é a previsão do vôo, o tempo está bom e não haverá necessidade de desvios por entre as nuvens.  Dali pra frente já é Amazônia.
 
    

Marabá, o aeroporto pequeno, mas bastante movimentado, é a entrada da região. Pouco tempo de espera. Vou tomar água no bar e a moça não tem troco para dez reais e fica olhando pra minha cara, problema meu. Vou passar sede, penso desanimado, porém um sujeito ao meu lado gentilmente completa minhas moedas com trinta centavos. Agradeço a solidariedade, talvez o clima amazônico enseje isso, as pessoas parecem juntar-se mais para sobreviver naquele calorão de panela de pressão. Então embarcamos num avião ainda menor que o anterior. Fico conjeturando que, se fôssemos para mais longe, na seqüência provavelmente embarcaríamos num ultraleve, depois voaríamos sozinhos em algum equipamento portátil, feito aquele cara da Nasa que voou na Sapucaí na escola do Joãozinho Trinta (com "s" mesmo,  que o nome dele é errado e ele faz questão de manter o erro). Continuo rezando para que minhas malas estejam me perseguindo no pinga-pinga. Vislumbro pro sobre a asa que meu tubão está sendo embarcado no avião em que estou. Tudo bem, ao menos para pescar estou garantido, pesco pelado caso a mala de roupas tenha ido parar na Oceania. A bolsa de carretilhas e a caixa de pesca continuam sendo minha bagagem de mão, não desgrudo delas nem pra ir ao banheiro.

Tucuruí, são três da tarde. O Brasília, que provavelmente ajudei a construir nos meus tempos de indústria aeronáutica, pousa suave. O calor é terrível, sufocante e úmido. Meu irmão me aguarda no aeroporto. Esperamos a bagagem, que, por obra e graça divina, veio toda. Vamos dar uma volta na cidade, ver a obra monumental da barragem, que está sendo ampliada para receber mais onze turbinas e duplicar a capacidade de geração de energia. É hora de troca de turno da peãozada. Curiosamente vejo mulheres em trajes masculinos de trabalho - roupa de brim azul, botina e capacete amarelo. Meu irmão esclarece que lá há pedreiras, carpinteiras, armadoras, concreteiras etc.; a mulherada dá duro tanto ou mais que homem. Zanzamos pela obra, vejo a eclusa ("incrusa", segundo a peãozada) que está sendo construída e vai possibilitar a continuidade da navegação naquele trecho do Tocantins. O tempo corre, começa escurecer. Então rumamos para a "casa de visita" da companhia, onde vamos ficar hospedados com bastante conforto.  Banho, roupa trocada, um breve repouso no ar-condicionado e saímos para jantar uma galinha de cabidela num restaurantinho simples, mas famoso na cidade pela comida caprichada (está até nos guias turísticos). Filé de filhote na chapa, frango no tucupi, caldeirada, entre outros pratos, tem de tudo, sempre acompanhado de arroz, feijão, farofa de farinha grossa e pimenta de cheiro.

Voltamos para casa e preparamos a tralha para a pescaria: vara pesada para corrico, linha de 40 libras, iscas grandes e barbeludas,  uma vara leve para arremesso com colherinhas do tipo Johnson e iscas menores de meia-água.

DOIS DIAS NO BARCO

São cinco da manhã de sábado e já estamos em pé. Arrumamos a tralha no carro e vamos para o embarcadouro, num clube que fica dentro da vila da obra. O esquema é o seguinte: as voadeiras sairão na frente, levando duplas de pescadores; atrás virá o barco grande, o Tuc-Tur, que servirá de base para os pescadores. São 14 pescadores, distribuídos em seis barcos de alumínio e uma lancha pequena.  Vamos a um lugar chamado Ararão, seguindo pelo canal principal da represa.

Os barcos seguem em duplas, por medida de segurança. Uns cinqüenta minutos represa acima e saímos do canal, parando para tentar os tucunarés no "Japonês", um local a meio caminho do Ararão.  É uma espécie de baía, com tocos e árvores mortas, capinzal nas beiras, a água tem subido ultimamente. Corricamos, que aqui só se pesca assim ou parado com isca viva.  O barco que nos acompanha fisga o primeiro tucunaré, é um paca pequeno, mas brigador, talvez de quilo e meio, o que eles chamam de "padrão".  Logo fisgo o meu tucunaré inaugural, também um padrão.  Meu parceiro, Adauto, o "Rambinho", fisga outro.  Rambinho é um sujeito paciencioso, quieto, beirando quem sabe uns quarenta anos, comerciante bem sucedido na cidade e pescador inveterado. Parceiro disposto, jamais perde uma isca. Enroscou, ele se enfia na água e vai buscá-la na profundeza do lago. Aqui não se perde nenhuma "piabinha", que é como eles chamam as iscais artificiais.

Damos mais algumas corricadas e outros tucunarés pequenos são fisgados. A parada ali é obrigatória, como um ritual de iniciação da pescaria. Mas logo seguimos adiante, para o Ararão. Já são quase nove horas da manhã e o tempo, que estava nublado, agora se abre e nos torra com aquele solão inclemente. Haja água e cerveja! A paisagem muda, são florestas mortas no meio do lago. Esqueletos de árvores imensas na água, mas ainda em pé. A região era para ter sido desmatada antes da inundação, mas nada foi feito. Lembram da Capemi? Pois é. No entanto, muita madeira de lei foi retirada depois, e sobram os enormes tocos serrados, alguns formando verdadeiras mesas circulares de quase dois metros de diâmetro. O barco volta e meia bate nos tocos que ficam invisíveis sob a fina lamina d'água que os recobre. Um perigo danado, mesmo para o povo já acostumado dali. Bater não é nada, o motor salta, assusta, mas continua-se a viagem; o duro é quando o barco encalha num toco daqueles; encavala-se no toco e é preciso saltar na água, para aliviar o peso, e arrancá-lo no solavanco.  Vivi a experiência, e digo, não é nada agradável ficar preso num toco naquele fim de mundo, por isso os barcos em dupla.

Chegamos ao Ararão e começamos a contornar as ilhas corricando. Um tranco forte, a briga curta, não deixar o bicho ir por pau de jeito nenhum; senão é peixe perdido. É um cupinzudo de uns três quilos; confiro na balança: três e duzentos, fotografo Rambinho segurando o meu peixe, depois ele me fotografa.  E seguimos corricando; mais alguns são fisgados, mas sempre pequenos.

Uma da tarde, vamos atrás do barco base, o churrasco já deve estar no ponto. Dito e feito: Tatá, o nosso cozinheiro e garçom já está servindo os que chegaram antes. Um pequeno acidente, Pedrão, um dos pescadores, esqueceu aberto o ladrão do seu barco. Não deu outra, no meio do almoço o barco foi a pique. Só deu tempo de Pedrão salvar sua caixa de pesca. Curioso como pescador preocupa-se especialmente com a caixa de pesca, o resto que afunde. Sorte que o barco estava amarrado ao Tuc-tur, e, mais sorte ainda, que havia gente disposta a mergulhar. Todo o material foi recuperado. A operação de salvamento com cordas para içar o barco e o motor de popa durou uns vinte minutos. Depois de arrancar fora o motor, foi preciso secá-lo. Tudo bem, motor funcionando, nada se perdeu além de uma chave inglesa que estava sobre o banco. Claro, a gozação em cima do Pedrão é terrível: "Titanic II, a continuação", porque ele já afundara o mesmo barco uma outra vez.  Seu barco é um daqueles pantaneiros de cara quadrada, uma chata; fácil de beber água quando batem as ondas, se estiver com a frente pesada. Da primeira vez foi esse o caso.

Almoçamos, descansamos, e saímos para a batalha dos tucunarés. Não está nada fácil, o peixe anda sumido. Poucas capturas na parte da tarde, a maioria no finalzinho do dia, mas arma-se um temporal que põe todo mundo a correr para o barco mãe. Ali não se brinca com tempestade, e ela vem rapidinho, tempo de nada e o aguaceiro desaba, vento forte, parece que o mundo vai acabar.

No barco base um "puchero" está sendo providenciado por Carlão e Tatá, enquanto rolam cervejas, cachaça, sashimi de tucunaré e um animado jogo de truco, além das histórias do dia e a gozação sobre o Titanic de Pedrão.
A tempestade termina do mesmo jeito que veio, de repente.  Anoitece, o jogo e o papo seguem direto. Aos poucos o pessoal vai-se recolhendo ao camarote onde há os beliches. Preferimos dormir nas redes armadas no convés do barcão. Inacreditável: nenhum pernilongo! Só o balanço suave do barco e a brisa refrescante da noite. Céu estrelado, o Cruzeiro do Sul dá quase pra pegar com a mão. Acordo às três da manhã e Geraldinho, ainda sob o efeito de algumas cervejas, discursa no escuro sobre a beleza tamanha daquele céu. Durmo e acordo novamente às cinco, nenhum ainda de pé, exceto Tatá que já providencia o café reforçado.

Saímos cedo, circundamos as ilhas, entramos em baías e enseadas, enroscamos em mil tocos e fisgamos pouco peixe. Voltamos para o almoço. Alguns fisgaram bons exemplares, mas poucos. Almoçamos churrasco e vamos batalhar à tarde. Uns já indo embora, quando a tempestade diária se forma lá longe. Logo está em cima da gente. Os que partiram de volta, logo após o almoço, depois nos contaram, tiveram de pular n'água para aliviar o peso do barco e esperar a tempestade passar agarrados à borda do barco. Felizmente, nada mais grave, além do sufoco. À noite, em terra, vamos encarar um tutu com carne de porco num restaurante da cidade.

                                      
OS TRÊS DIAS SEGUINTES

Segunda-feira, eu e meu irmão saímos com Rambinho, agora sem o apoio do barco mãe. Vamos em direção ao local que denominam Bom Jesus. É longe, onde diziam estar estourando tucunaré. Vamos parando pelo caminho para tentar a sorte nalguns locais bonitos ­ aliás, o que não falta por aqui é local bonito. Fisgamos alguns peixes, mas nada impressionante. À tarde Rambinho fisga um de seus quatro quilos, um azul. Eu uma BICUDA 
. Depois alguns pacas do tipo padrão, fisgados por meu irmão. E ficamos nisso. Acabamos por não chegar direito ao Bom Jesus, tanto que paramos.  Mas o peixe anda raro. No arremesso meu irmão fisga uma piranha preta que é guardada para fazer um revigorante caldo.

À tarde, já voltando, paramos num lugar chamado Água Fria, onde Rambinho fisga dois tucunarés mal começamos a corricar.  Ali, uma curiosidade, uma escolinha escondida numa das ilhas. Construção simples, de madeira, pintada de verde-claro. A garotada chega de barco, um grande, que percorre as ilhas catando a criançada. Outros de canoa. O professor, um rapaz nativo de vinte e poucos anos, após a aula, se prepara para voltar à cidade numa piroga movida por uma rabeta comprida e lenta. Há várias dessas escolas nos fundões do lago. Quando chove forte, é impossível voltar, as marolas não são de se enfrentar com pirogas. Então, o professor pesca para comer e dorme na escola. Os ribeirinhos comem o mapará, um tipo de bagre cuja carne é levemente salgada, portanto dispensa tempero. Ajuntam com açaí e farinha, e está pronta a refeição.
Jantamos em casa de Marco Antônio e Iná, do Recife. Entrada: pupunha com gorgonzola e um sururu. Depois, um purê de macaxera com carne de sol e um belo assado de costela de bode. Quem ouve falar em bode nem imagina o que é bom aquilo; a questão é saber preparar. Terça, saímos com Geraldo, novamente rumo ao Bom Jesus. Desta vez chegamos e reviramos todas as ilhas e baías. Corricamos pelas ilhas e tudo que é entrada, mas pouco peixe. Voltamos mais cedo, que o sol está pra ninguém botar defeito.

Jantamos em casa de Humberto e Adriana, mineiros de "Belrzonte". Comida de fogão de lenha, frango caipira com quiabo e uma excelente cachaça mineira, sobremesa é doce de leite. Quarta, novamente com Geraldo, saímos rumo ao Caraipé. Vamos parando e arriscando a sorte. Chegamos ao Caraipé por volta de meio-dia. Viagem inútil: o mato trancou a entrada, nenhuma passagem possível. Peixe batendo no meio do mato. Longe demais para corrico, e é impossível bater isca naquela tranqueira. Voltamos corricando nos locais mais indicados, mas nada de peixe. Só não voltamos sapateiros porque um paquinha se apresenta para salvar a tarde.

Um ribeirinho com o qual cruzamos nos cumprimenta e pergunta como está a pescaria. Respondemos que não havíamos pego nem pra comer. Ele entende ao pé da letra, também não fora bem sucedido, mas fisgara um de bom tamanho e nos oferece o peixe de graça. É comovente a solidariedade, o cara sem nada nos dando o único peixe que pegara.

Agradecemos e recusamos explicando que nosso interesse é só fisgar o peixe, não levá-lo. Ele não entende muito bem por que diabo então pescamos. Damos-lhe umas cervejas, queijo e pão, e vamos embora.

Jantamos em casa de Pedrão e Rosana; galinhada com jacutaia e cerveja ultragelada. Nem preciso dizer sobre a comida. Mas digo, ótima!

A VOLTA

Quinta, hora de vir embora. Avião às 13:58. Não sei por que essa precisão em estabelecer o horário, pois a decolagem acabará sendo mesmo às 14:00 ou mais. Rodamos pela vila para nos despedir do pessoal e almoçamos na cidade, peixe frito e frango caipira no tucupi com jambu. Embarcamos de volta: Tucuruí, Marabá, Brasília, Congonhas, e eles, finalmente, conseguem: a mala do meu irmão sumiu no meio do caminho! Deve ter ido parar no Afeganistão ou no Tibete. Ainda estão procurando a bandida mala fujona. Minha tralha chega inteira, apenas um pouco ralada pela habitual delicadeza do pessoal de terra nos aeroportos.

Para falar a verdade, não fisgamos tanto peixe, mas valeu a pena assim mesmo, pelo que fizemos de novos e bons amigos. E o que comemos me fez aumentar dois furos no cinto. Eta povo hospitaleiro! Ainda não sei bem se foi uma viagem de pesca ou um périplo gastronômico. Última surpresa, por sinal, agradável: o débito da passagem no meu cartão foi menor do que eu esperava. Na última hora a moça conseguiu um preço promocional que reduziu o prejuízo em cerca de vinte por cento. Aleluia!

Conselho a quem for pra lá: leve material pra corricar, que no arremesso é tempo perdido.
Foi isso.  Próxima aventura será em Serra da Mesa, em Goiás. Estamos na fase de arquitetar a viagem. Dizem que por lá o tucunaré anda pulando pra fora d'água pra abocanhar as iscas.

Vamos conferir.
Wilson Morais
wmorais@iconet.com.br

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