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CANANÉIA - TERRA DOS GIGANTES    
RUBINHO ALMEIDA PRADO

Considerada uma das regiões mais piscosas do Estado de São Paulo, CANANÉIA sempre esteve presente nos roteiros de um grande número de pescadores esportivos. Além de ser o estuário de vários rios que formam uma extensa rede de manguezais, encontram-se também ali as florestas de encosta, restingas e matas de planícies que abrigam milhares de espécies vegetais e animais. Suas águas, fartas em alimentos, formam um ambiente especial à procriação e desenvolvimento de uma grande variedade de peixes.

Histórias memoráveis são contadas em verso e prosa por pescadores que anos atrás freqüentavam a região. Mesmo hoje em dia, com a agressão do desenvolvimento urbano ao meio ambiente e uma pesca profissional intensa, sem controles ou preocupações com o futuro de nossos cardumes, ainda é possível fazer excelentes pescarias no local. Além da pesca nos mangues, há também boas opções em mar aberto. Ilhas próximas da costa, como a do Bom Abrigo, Figueira, Camburiú e Castilho, são paradas obrigatórias de grandes peixes, atraídos pelo fluxo de espécies que circulam entre o mar e os canais de mangue, chamado de "mar de dentro".

Cananéia oferece a chance de pesca esportiva de alta qualidade e outras atrações de grande valor turístico. A cidade, com cerca de 12.000 habitantes, fundada no século XVI, proporciona um rico passeio histórico. Caminhar pelas trilhas da Mata Atlântica e visitar o centro de pesquisas ambientais da Ilha do Cardoso são algumas das opções turísticas que valem a pena conferir. Para os amantes da pesca esportiva, existem pousadas, hotéis e marinas com excelente infra-estrutura.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Cananéia começa a sua vida em 1502 pelas mãos do bacharel português Cosme Fernandes. O fundador chegou ao local em caravelas, chamadas pelos índios Tupiniquins de Mutupaba - "coisa maravilhosa", na língua guarani. Durante os dois anos em que lá residiu, casou-se com Caniné, filha do cacique Ariró. Ao partir, dois anos depois, deixou para trás a sua amada e a já conhecida Terra de Caniné.

Desesperada, todos os dias Caniné tomava sua canoa e, na ilha que ficava na saída da barra para o mar, subia na árvore mais alta para esperar as velas brancas que trariam de volta o seu amor. O bacharel, ao invés de voltar, fez uma aliança com Piquerobi, grande chefe tupi da região de Gaió, atual São Vicente. Casou-se com a filha dele, deixando Caniné em profunda tristeza.

Ao saber da notícia, Caniné, do alto de sua árvore, viu o mar pela última vez e desapareceu. Ariró, na espera angustiante, enviou seus índios em busca da filha, mas estes só conseguiram encontrar uma linda e imensa arara com penas vermelhas e azuis. Cerca de vinte anos depois, os próprios homens do bacharel português, desavisados, mataram a grande arara em sua ilha, hoje conhecida como Ilha do Cardoso. Furioso, Ariró rogou uma praga que caiu sobre o povoado de Caniné. Os tupiniquins alongaram-se pelas matas e o bacharel perdeu-se em guerra contra Gaió, seu segundo sogro.

                        

O nome Terra de Caniné foi sofrendo modificações em sua nomenclatura com o passar dos anos : Caninéia, Cananéa, Cananéia. ( Fonte: Prefeitura Municipal da Estância de Cananéia )

EMOÇÃO DE SOBRA

A entrada de uma frente fria, logo no primeiro dia, engrossou o mar, impossibilitando a saída para o mar aberto. Nessa situação, as ações de peixes são poucas, sem contar as precauções exigidas pela segurança. Foi preciso esperar alguns dias para que a passagem da barra de Cananéia não oferecesse nenhum risco à navegação. A lancha de 19 pés, cedida pela Marina Cananéia e pilotada pelo guia Reinaldo, era segura para essa pescaria, mas não recomendada para um mar grosso como aquele que se apresentava.

A Ilha do Bom Abrigo, nosso primeiro ponto de pesca, não estava nos seus melhores dias. Uma hora de pesca e nenhuma ação. Mais dez minutos de navegação e as iscas artificias já eram arremessadas em direção aos costões de água espumada da próxima ilha. As poucas ações de peixes na superfície e meia água levaram a uma troca de iscas. Trabalhar os jigs sobre as lajes mais profundas, entre 5 e 10 metros, mostrou ser a opção certa. Alguns pequenos xareletes e badejos fisgados nos jigs de penacho branco e amarelo animaram a pescaria e indicavam boas chances de ferrar um exemplar de maior porte. No meio da manhã, um grande cardume de sororocas, também chamadas de sardas, acompanharam diversas vezes as iscas artificiais mas sem a necessária voracidade para o ataque final.

No lado sul da Ilha da Figueira, o guia Reinaldo inverteu a posição do barco e ancorou a lancha junto ao costão para que os arremessos fossem feitos para o lado de fora, em uma laje com cerca de 8 / 9 m de profundidade. Pouco tempo depois, a bocada de um peixe grande no jig branco quase tomou a vara de minha mão. A ferrada foi um ato de ação e reação. O som do cantar da fricção da carretilha com a tomada de linha veio a seguir, forte e compassado.

Enquanto a poita era içada, eu procurava trabalhar o peixe com calma, para impedi-lo de tomar conta da situação e buscar proteção junto as pedras, lugar ideal para a linha se romper. Com o barco solto, a briga fica mais equilibrada e as chances de sucesso do pescador são maiores, principalmente quando se pesca desportivamente com equipamento leve, como era o meu caso. A linha de 17 lb.( 0,38 mm ) poderia resistir bem, desde que não disputasse espaço com nenhuma ponta de pedra.

Durante cerca de 20 minutos, o grande XARÉU   cabeceou para todos os lados e passeou com certa liberdade, as vezes mais perto, outras, mais longe da ilha. Quando subiu cansado, seus dez quilos de peso justificaram a razão de uma luta com tanta garra. Afinal, um exemplar desse porte não é todo dia que aparece. Após reposicionarmos o barco, não foi preciso esperar nem 10 minutos e fazer meia dúzia de arremessos para sentir novas emoções...

Eu trabalhava tranqüilamente o jig, dando toques curtos e secos para o alto com a ponta de vara, procurando sentir a todo o momento a isca tocar na laje. De repente, veio a trancada. A sensação foi como se a isca estivesse se prendido em uma fenda nas pedras. Ferrado, o peixe iniciou uma veloz corrida, obrigando o guia a recolher a âncora o mais rápido possível, já que eu não dispunha de muita linha na carretilha. O peixe tomava linha com vontade e brigava com violência, demonstrando ser, no mínimo, do mesmo tamanho do xaréu pescado anteriormente. Embora não soubesse com certeza qual espécie de peixe estava na ponta da linha, o estilo da briga sugeria ser também um outro xaréu. Trinta e cinco minutos foi o tempo que levei para confirmar minha impressão e dominar aquele animal. Além do peso (cerca de doze quilos), esse exemplar lutou com mais bravura, uma vez que a isca fisgou-o na junção da cauda com o corpo, permitindo que nadasse com mais liberdade e força. Foi demais !!

Ambos os peixes, após serem soltos, nadaram com boa energia para o fundo, em busca de abrigo para o merecido descanso. Naquele momento, me senti completamente realizado como pescador esportivo. Havia pescado dois exemplares que podem ser considerados troféus para qualquer desportista da pesca, principalmente quando está utilizando equipamento leve. Com esse tipo de material, somos obrigados a aplicar toda técnica e experiência, se quisermos ter alguma chance de vitória. Matar aqueles belos animais, depois de terem me proporcionado tanto prazer e vibração, seria, no mínimo, um ato covarde de quem é incapaz de admirar a valentia de um lutador competente. Tenho a certeza de que aqueles xaréus, como tantos outros que circulam pelas paragens de Cananéia, ainda trarão muita emoção a outros pescadores que ali se aventurarem.

Cananéia me surpreendeu positivamente, superando as minhas expectativas e mostrou que resiste bravamente a impiedosa depredação dos dias de hoje. Não tenho dúvidas de que, se bem cuidada, a região poderá voltar a ser um dos melhores pontos de pesca do país, atraindo turistas brasileiros e estrangeiros.

                                                         
ROTEIRO

 

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