0- 1- 2- 3- 4- 5- 6- 7- 8- 9- 10- 11- 12- 13- 14- 15- 16- 17- 18- 19- 20- 21- 22- 23

MOLINETES E CARRETILHAS - QUANTO DE LINHA?
WILSON MORAIS

Um dia desses, presenciei uma discussão acalorada sobre o quanto comportaria de linha (de um diâmetro tal) um molinete que indicava uma determinada quantidade de linha de um outro diâmetro. Essa dúvida ocorre quando o molinete ou carretilha não tem a indicação correspondente ao diâmetro da linha que pretendemos usar.

O assunto me intrigou, pois quando se tem, por exemplo, uma quantidade indicada de 150 m de linha 0,40 mm, e queremos saber quanto caberia nesse mesmo molinete, se usar linha 0,20 mm, a resposta que, de cara, tendemos a dar é 300 m. Isso porque 0,40 mm é o dobro de 0,20 mm; portanto, pela lógica, caberia o dobro. Seria isso mesmo ?

FAZENDO A CONTA

Errado! A conta que se faz não é essa. Temos que levar em consideração que, quando estamos falando de diâmetros diferentes, estamos também tratando de circunferências cujas áreas são diferentes. Explico melhor: considerando que a linha é um corpo cilíndrico, se tirássemos uma fatia de cada uma teríamos a nossa frente duas circunferências bastante diferentes no que se refere às respectivas áreas.

Voltemos aos bancos escolares: área da circunferência é igual a p r2 , onde "r" (raio), no caso da linha 0,20 mm, é 0,10 mm, portanto o resultado seria 0,0314 mm2. No caso da linha 0,40 mm, o resultado seria 0,1256 mm2. Vemos, então, que a relação entre as duas áreas é de 4 vezes, e não de duas como supúnhamos inicialmente. Assim, onde cabem 150 m de linha 0,40 mm, caberão 600 m de linha 0,20 mm. Da mesma forma, se fizermos as mesmas contas tomando uma linha de 0,60 mm em relação a outra de 0,20 mm, teríamos uma relação de 9 vezes (o quadrado da relação entre os diâmetros - 32). Ou seja: onde cabem 150 m de linha 0,60 mm, cabem 1.350 m de linha 0,20 mm!

UM MODO MAIS PRÁTICO DE CALCULAR

A fórmula prática para se chegar à metragem de linha possível é: tome o diâmetro correspondente à linha mais grossa e divida pelo diâmetro da linha mais fina. Você encontrará, então, a relação entre os dois diâmetros. Eleve esta relação ao quadrado e multiplique este resultado pela quantidade de linha mais grossa indicada no molinete.

Exemplo: Molinete indica 150 m de linha 0,40 mm, qual a quantidade possível de linha 0,20 mm ? Resposta: 600 m, porque:

0,40 / 0,20 = 2 (relação entre os dois diâmetros)
22 = 4 (relação entre os dois diâmetros elevada ao quadrado)
4 X 150 m = 600 m (quadrado da relação x quantidade de linha mais grossa é igual a quantidade da linha mais fina comportada pelo molinete)

Evidentemente, se partirmos de uma indicação de linha mais fina para sabermos a quantidade de linha mais grossa, a última operação não é de multiplicação e sim de divisão da quantidade de linha mais fina pelo quadrado da relação entre os diâmetros.

EM RESUMO

 

Resumindo, as operações consistem em:

  • do diâmetro maior para o menor:

    Quantidade de linha mais grossa (LG) multiplicada pela relação entre diâmetro maior e diâmetro menor (DM/dm) elevada ao quadrado, é igual à quantidade de linha mais fina (LF), ou seja: LG x (DM/dm)2 = LF

     

  • do diâmetro menor para o diâmetro maior:

  • Quantidade de linha mais fina (LF) dividida pela relação entre diâmetro maior e diâmetro menor (DM/dm) elevada ao quadrado, é igual à quantidade de linha mais grossa (LG), ou seja: LF ¸ (DM/dm)2 = LG

OUTROS FATORES A CONSIDERAR

Claro que, em termos numéricos, teremos um resultado exato. Entretanto, na prática temos que levar em conta, ainda, os seguintes fatores, que contribuem para a diminuição ou aumento da capacidade da bobina do molinete:

1– O diâmetro indicado pelos fabricantes das linhas varia cerca de 10% para mais ou para menos; portanto, pode aumentar ou diminuir o total, dependendo do caso;

2– Ao enrolarmos a linha, por ser ela um corpo cilíndrico, sempre haverá espaços entre os seus anéis que impossibilitarão uma acomodação absolutamente perfeita;

3– Os molinetes nem sempre trazem a indicação correta das quantidades de linha que comportam;

4– Por último, não é de surpreender se, eventualmente, a metragem do carretel de linha adquirido estiver incorreta.

LEMBRETE FINAL

Devo dizer que resolvi fazer estas contas todas porque, numa breve pesquisa que fiz entre pescadores de praia, que usam grande quantidade de linha, percebi que a maioria não tinha certeza sobre a forma de chegar às quantidades corretas. Tais contas poderão ser úteis para dirimir dúvidas dessa natureza. É bom lembrar ainda que, antes de achar que fomos lesados na compra da linha e culparmos o lojista por eventuais "faltas", é recomendável que façamos a conta corretamente, para não pagar mico!

E chega de explicações! Minha cabeça já está inchada de tanto número. Afinal, eu fiz o curso de… Direito! E faz muito tempo. Perdoem–me os craques em números pelas explicações muito detalhadas mas, igual a mim, muitos pescadores devem ter lá suas dificuldades, e não custa nada simplificar um pouco as coisas. Minha atividade é outra, e nela não tem esse negócio de PI, diâmetro, quadrado disso ou daquilo etc. Tive que fuçar um bocado pra descobrir essas coisas, que são sopa para uns, mas terríveis para outros simples mortais. Pão ou pães, é questão de opiniães, como dizia Guimarães Rosa, o mestre.

 

WILSON MORAIS


Escritor e pescador. É também um dos editores do site www.navedapalavra.com.br, que vem conquistando muitos usuários em função de sua qualidade e da Revista Eletrônica Quinzenal. Visite o site e converse com o autor  .


Copyright ©2000-2004, by PESCARTE/SP, Brasil